
"Num ensaio Kathy Acker escreve que as mulheres estão sempre se tocando. Se tocando all the time. A frase não é dela, é de uma filósofa francesa. Deixa pra lá: as mulheres estão sempre se tocando all the time because os lábios vaginais se tocam, duplos. Questão anatômica. Quando uma mulher sobe numa moto ela abre as pernas e permanece de pernas abertas toda a viagem. Toda a estrada. A mulher come a estrada. O asfalto é imediato. Assim como o vento. Assim como a barba. A mulher na moto produz o vento. Quanto mais acelera, mais vento. Os eucaliptos replantados vão ficando cada vez mais para trás, passando de futuro para passado muito rapidamente. Está a três horas longe de casa. Cada vez mais longe de casa e mais ao centro. É um presente que não acaba. <obs: tvez até aqui> Se pára, acaba o vento. Não há vento em estado inerte, não nessa hora, nessa época do ano - massas polares cobrem outros corpos, outros territórios. Ela pára num mirante numa curva da serra do Mar. Ali embaixo é Santos? Bebe água. Uma cobra atravessa. Escamosa e sinuosa até que estica. A cobra é estrada. Medo nenhum da cobra, mas sim do ônibus de turismo queimando os freios. Toneladas de lataria na descida. Segue mais adiante. Pára novamente, agora para abastecer a moto. O cheiro de gasolina. Desce da moto e os lábios estão novamente colados. É uma mulher sem pressa. Toma um café na loja de conveniência e, do balcão, pelo vidro, tenta ler o muro da borracharia que esconde uma bananeira. Números. Fotografias. Propaganda eleitoral de alguma campanha local. Segue a estrada de pernas semi-abertas e muito vento. Urgência de espaço. Velocidade sobre distância. A moto inteira entre as pernas. O motor nas mãos, pelo guidão. Controle. É preciso muita estrada. Uma estrada que a faça cansar. Não era essa a rota. Ela queria o caminho do deserto."
Page Count:
72
Publication Date:
2023-09-09
Publisher:
Córrego
ISBN-10:
6588822510
ISBN-13:
9786588822517
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